terça-feira, 17 de setembro de 2013

Altares históricos retornam a Campos e recontam o que o tempo esqueceu

"Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer no presente e no futuro, os mesmos erros do passado"
. A máxima tem autoria desconhecida, mas traça uma verdade incontestável a qual também não seria errado acrescentar que um povo sem história é um povo sem identidade.
Na última semana, o Arquivo Público de Campos recebeu de volta dois fragmentos de tempos historicamente ricos, e ignorados pela grande maioria dos munícipes. Os altares da Capela de Nossa Senhora das Dores e São Miguel, há tempos perdidos e desde 2002 sob a guarda do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, retornaram ao Solar do Colégio, lugar de onde nunca deveriam ter saído. As peças foram recuperadas pela Polícia Federal em um antiquário da mesma cidade onde estavam expostas a venda.
“Nós temos esse acervo artístico que está agora em fase de conservação. Então além da memória documental, você junta a memória arquitetônica e a memória artística que é a maneira da população ter contato com um exemplar único. Aqui é a base da identidade, por que essas paredes testemunharam muita coisa”, disse o diretor do Arquivo Público Municipal, o museólogo Carlos Freitas.
Cedido desde 2001 ao município para abrigar o Arquivo Público Municipal, o Solar do Colégio, que foi desapropriado pelo Governo do Estado em 1977, e parte do que já foi a Fazenda de Nossa Senhora da Conceição e Santo Inácio, pertencia ao Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro. Atualmente é considerado um dos exemplares mais bem conservados da arquitetura jesuítica no país.
Depois que os Jesuítas foram expulsos em 1759, a propriedade era comandada por dois padres que quando foram recolhidos e encaminhados para o Rio de Janeiro para serem expulsos, deixaram os bens que ficaram sob a guarda da Coroa Portuguesa até 1781. A propriedade foi então leiloada e vendida para Joaquim Vicente dos Reis, um comerciante português que veio morar no local com a família. Como ele só tinha filhas, uma delas casou com Sebastião Gomes Barrozo, outro comerciante português ligado a Joaquim Vicente.
Sebastião deu origem à família Barrozo na região e a partir dele e dos filhos da senhora Ana Bernardina, a fazenda foi sendo passada, aumentando durante uma época e depois retrocedendo com a venda de lotes e partilhas de herdeiros. Nesse processo, partes importantes do passado foram se perdendo até reduzir-se ao que existe hoje.
O diretor do Arquivo Público Municipal, o mestre e historiador Carlos Freitas contou que chegar ao paradeiro das peças foi um trabalho árduo e de persistência. Uma vez localizadas, começaria o trabalho burocrático para trazê-las ao seu local de origem.
“Nós estamos trazendo de volta esses dois altares que estavam sob a guarda do Museu Histórico Nacional, por ordem da Justiça Federal. Os altares foram recuperados pela Polícia Federal junto com o Iphan nos anos 80, por que eles foram indevidamente retirados daqui. Na época, dois herdeiros do senhor Barrozo, falaram que eles tinham ido (para o Rio) para serem restaurados, mas ficaria muito mais caro levar e depois trazer montado esse negócio do que ter restaurado aqui” pontuou o historiador.
 
Carlos revelou que mesmo já estando na Capela, a busca pelas peças do solar ainda não estão concluídas. Há que se verificar o processo de desapropriação, para que aí sim, tenha-se respaldo legal para estornar todas as peças históricas e artísticas que por si só contam parte da história que muitos campistas desconhecem.
“Estamos procurando o processo de desapropriação para saber o que o estado realmente desapropriou para eu ter base para cobrar a devolução do restante. Se o Estado desapropriou com tudo que estava dentro, ai o Serviço de Patrimônio do Estado vai ter que entrar com uma ação de retorno desse patrimônio, de busca e apreensão desse material. Mas, eu só posso fazer isso quando eu tiver documento que comprove o que tinha aqui e o que foi desapropriado. Se o Estado desapropriou com os bens móveis e imóveis, aí eu tenho o embasamento legal. Fora isso, tenho que ir tentando convencer as pessoas a ir devolvendo”, explicou Carlos.
Os altares compunham o grande altar da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e São Miguel, construção erguida na época de regência dos padres jesuítas, mais precisamente do prior Padre Pedro Leão, e pela força da mão-de-obra indígena, que também é responsável pelo entalhamento das peças esculpidas em estilo barroco colonial levando pinturas a ouro e aplicações de folículas do metal nobre.
Tantos detalhes deixam o trabalho de restauração mais delicado. Somente a montagem das peças, que teve somente 329 fragmentos recuperados, estando os outros já sob a guarda do Arquivo Público, deve tomar o tempo de um ano. As peças perdidas, que não são poucas, serão reproduzidas fielmente a partir de fotos tiradas na ocasião do tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan).
“Vamos ter que encontrar uma madeira na espessura indicada e com a textura que se aproxime da original. Para que, por exemplo, na hora que você recompor a pintura em ouro, ela tenha visualmente o mesmo efeito”, explicou ressaltando que o trabalho deverá ser feito em etapas e por profissionais especializados que deverão ser contratados para a execução do serviço. O trabalho também vai contar com a memória visual de antigos frequentadores da capela, que até os dias de hoje moram na localidade.
PERDA DA MEMÓRIA CULTURAL
Com o respaldo de quem conhece a fundo a história, não somente do município, mas da região como um todo, Carlos Freitas falou sobre a importância de se conquistar o interesse dos pequenos e jovens cidadãos campistas para a história e importância histórica da cidade.
“O sistema de ensino preconizado é um sistema de ensino único. Se usa um determinado padrão de livros escolares e a história local acaba. Se não houver uma conscientização, pelas instituições de ensino local, de que a cadeira de história regional precisa ser trabalhada até o ensino médio, não vai ter razão, por que as crianças veem internet, televisão, enfim, toda uma carga de informação que não é local e aí você acaba mudando seus valores. Quando você muda seus valores, os valores locais são esquecidos e aí tem a perda de memória local”, o historiador explica que desta forma, ao longo do tempo foram se extinguindo os grupos de Folia de Reis, de Jongo e até mesmo a Mana Chica do Caboio, dança tipicamente campista, e até mesmo a culinária sofre alterações.
“A busca pelo novo começa com você renegando seus conhecimentos e tradição local, num plano que você deleta. Por exemplo, aqui em Campos tem gente que até hoje não sabe que o arquivo está aqui, com 12 anos de funcionamento”, dispara.
“A gente faz um trabalho de preservação, mas não é para agora, é para o futuro. A geração que passou dos quinze anos, está praticamente perdida, a gente tem que começar com essa geração que está nos primeiros sete, oito anos do ensino. Se você não cativar ali essas crianças, sobre a importância da memória local, sobre a importância da região como um centro difusor do conhecimento e um centro econômico importante, acabou”, finaliza Freitas.
O Arquivo Público Municipal está aberto de segunda a sexta, das 09h às 16h. As visitas de escolas podem ser agendadas pelo telefone 2733 9999. Pesquisadores que quiserem se inscrever, podem fazê-lo também dentro deste horário, sem necessidade de agendamento prévio.

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